‘Bunker petista’, Maricá dá vitória a Flávio e expõe resiliência bolsonarista no RJ

Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno em Maricá (RJ), onde recebeu 49,82% dos votos válidos, ante 43,18% de Lula. Segundo a reportagem, o resultado expõe a força do bolsonarismo mesmo em uma cidade administrada pelo PT.

As gestões petistas no município começaram em 2009, quando Washington Quaquá assumiu a prefeitura. Nesse período, Maricá ampliou políticas sociais financiadas, em parte, pela arrecadação de royalties do petróleo.

Em Itaipuaçu, bairro que abriga locais de votação como o colégio Leonel Brizola, Flávio também teve votação expressiva no primeiro turno de 2026. O desempenho local se insere em um estado que, segundo a reportagem, se aproximou do bolsonarismo a partir de 2018.

eleição em Maricá

A disputa envolve diferenças entre o voto municipal e o nacional, além de mudanças na política local. O ex-prefeito Fabiano Horta e o atual prefeito, Washington Quaquá, aparecem nesse quadro de tensões e transformações em Maricá.

Flávio lidera em Maricá e supera Lula no primeiro turno

No colégio Leonel Brizola, em Itaipuaçu, Flávio Bolsonaro obteve 55,31% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 37,6%. A escola foi inaugurada em 2023 pela prefeitura petista, mas isso não impediu a vantagem do candidato do PL naquele local de votação.

A tendência de votos presidenciais favoráveis ao bolsonarismo já aparecia em 2018: Jair Bolsonaro alcançou 57,59% dos votos válidos em Maricá no primeiro turno. Desde então, segundo a reportagem, candidatos do campo bolsonarista ficaram à frente na cidade nas disputas para presidente, mesmo com vitórias petistas nas eleições municipais, frequentemente acima de 70% dos votos válidos.

A separação entre escolhas locais e nacionais também apareceu nas urnas para o Congresso. Nos mesmos locais em que Flávio liderou, candidatos da coligação de Lula para a Câmara dos Deputados somaram mais da metade dos votos, ou 54%.

Royalties e políticas sociais marcaram as gestões do PT

Maricá recebeu R$ 2,6 bilhões em royalties do petróleo em 2025, o maior repasse entre os municípios brasileiros naquele ano. O Censo de 2022 registrou 197 mil moradores, e a cidade atrai novos residentes anualmente, segundo os dados citados na reportagem.

Entre as iniciativas financiadas com esses recursos estão a tarifa zero nos ônibus, criada em 2014, e a moeda social Mumbuca. A prefeitura também oferece Renda Básica de Cidadania, de R$ 230 por mês, a famílias com renda de até três salários mínimos, como complemento ao Bolsa Família.



Parte dos programas foi associada a referências políticas da esquerda: os ônibus gratuitos são vermelhos, assim como a comunicação visual municipal. Em 2010, uma estrada de Itaipuaçu recebeu o nome de Carlos Marighella, ex-deputado pelo PCB que participou da luta armada contra a ditadura e foi morto em 1969 por agentes da repressão.

O investimento do PT no município foi planejado diante da expectativa de crescimento dos royalties com a descoberta do pré-sal. Após a criação da tarifa zero, as vitórias municipais do partido se ampliaram: Fabiano Horta foi eleito em 2016 com 96,12% dos votos válidos e reeleito em 2020 com 88,09%.

Voto nacional contrasta com a política local e as disputas no PT

Moradores ouvidos pela reportagem atribuíram a diferença entre as disputas municipais e presidenciais a motivações distintas. Taíssa Barros, eleitora de Lula que vendia material escolar na praça do Barroco, disse que há receio de perder políticas públicas caso o grupo que administra a cidade seja substituído, enquanto o voto para presidente refletiria mais a ideologia de cada pessoa.

O músico Bruno Viana, eleitor de Jair e Flávio Bolsonaro, afirmou que benefícios e empregos ligados à prefeitura ajudam a explicar a permanência petista no poder municipal, mas que a escolha nacional segue outra lógica. Já Maria da Conceição, vendedora de doces e apoiadora do PT, relatou ter sido questionada por uma vizinha ao usar um adesivo de Lula e disse associar a resistência ao presidente à desinformação e à influência religiosa.

Fabiano Horta avaliou que uma eleição presidencial polarizada pode mobilizar fé e ideologia mais do que a avaliação da administração local. O ex-prefeito também relacionou o crescimento populacional impulsionado pela indústria do petróleo à chegada de eleitores sem vínculos históricos com a cidade e com a formação dos programas sociais; ele apontou ainda a força bolsonarista em municípios próximos, como Saquarema, onde Flávio teve 64,35%, e São Gonçalo, onde alcançou 52,37%, enquanto Niterói deu vitória a Lula, com 48,35% contra 43,71% do candidato do PL.

Depois de dois mandatos de Horta, Washington Quaquá venceu a eleição municipal de 2024 com 73,74% dos votos válidos, mas os antigos aliados romperam. O atual prefeito passou a cortar benefícios sociais e a priorizar qualificação profissional e turismo; na eleição para deputado federal, Horta recebeu 50 mil votos em Maricá, ante 16 mil de Diego Quaquá, filho do prefeito, e comemorou o resultado com aliados.



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